Há alguns fatores que o ecossistema brasileiro de startups ainda precisa aprender se quiser que o país seja, de fato, um país reconhecido como celeiro de inovação. É preciso ser dito que muito já se evoluiu. Um levantamento da AAA inovação (com dados do Deal Book, que envolve investimentos de fundos de venture capital e fusões e aquisições) mostra que o valor de investimentos recebido vem dobrando ano a ano. O valor captado pelas startups brasileiras, segundo o estudo, foi de R$ 32 bilhões em 2019. O dobro do valor captado em 2018 (os R$ 9,3 bilhões restante foi movimentado em fusões e aquisições).

Embora isso seja ótimo, ainda precisamos melhorar em muitos aspectos. Quando falamos exclusivamente de investimento de risco em startups (o venture capital tradicional), nota-se que aproximadamente 86% de todo o valor foi investido em poucas startups. Das 384 transações registradas no Deal Book, apenas 43 foram feitas nos estágios iniciais, que são o investimento-anjo e o investimento seed, respectivamente. Esses 43 aportes juntos somam R$ 36,6 milhões. Valor que é próximo a 1% de todo o montante transacionado nesse mercado.

Há uma preferência clara dos fundos por startups em “late stage” (estágio final), devido ao risco reduzido desses investimentos e uma (quase) garantia de múltiplos (retorno sobre o investimento). Uma vez que essas startups já provaram seu modelo de negócios e estão em pleno crescimento, o dinheiro vem para dar combustível final para a internacionalização e IPO (na maior parte das vezes).

Logo, embora o ecossistema brasileiro de startups mostre melhoras consideráveis, ainda precisamos aprender essas 6 lições se quisermos nos tornar referência em inovação algum dia.

1. Empresas que não inovarem não sobreviverão

A essa altura do campeonato não é preciso dizer que empresas que não se reinventarem – várias vezes, não sobreviverão as contínuas mudanças e evoluções tecnológicas da era atual. Quando olhamos para as grandes empresas, é claro que elas precisam aprender a dançar com empresas mais enxutas e ágeis, as startups, se quiserem se manter no topo. Essa é uma dança difícil. Afinal, colocar um elefante para dançar com uma gazela – sem que ele pise nos pés da gazela – é um exercício de extrema dedicação. No entanto, essa dança é necessária para ambos os lados da pista de dança.

Nessa pegada, muitas aceleradoras e iniciativas de corporate venture falham em cumprir suas promessas. Principalmente porque ainda não aprenderam exatamente como adicionar valor para as startups seguindo as mesmas regras engessadas de uma corporação. Além disso, essas iniciativas ainda não conseguiram uma maneira eficiente de recapturar o valor adicionado, para gerar um ciclo virtuoso que alimente o ecossistema e todos saiam ganhando.

2. Pensar grande é pensar globalmente

O Brasil é um país de proporções continentais. Logo, é fácil acreditar na ideia de que o mercado local é suficiente. Startups não podem pensar de forma limitada. Com a tecnologia, trabalho remoto e espaços de co-working se tornando cada vez mais acessíveis, o mundo é o limite.

Nunca houve tanto dinheiro disponível no mundo das startups. Como falamos acima (e como mostra essa notícia da Neofeed), os caixas dos fundos de investimento brasileiro estão abarrotados. 

Esses são os ingredientes perfeitos para a atuação global de startups brasileiras. Pensar em sofisticação, foco e flexibilidade para atingir esses objetivos nunca foi tão evidente e necessário.

3. Grandes desafios exigem grandes mudanças culturais

Você já viu um russo tentando se comunicar com um japonês sem nenhum tradutor por perto? É essa cena que eu vejo – diariamente – quando vejo corporações tentando fazer negócios com startups.

O valor real que uma grande empresa pode oferecer a um empreendedor iniciante é fazer negócios juntos. Para que isso seja possível, corporações precisam suavizar a interface de comunicação com startups. Da tecnologia, aos processos e as pessoas, essa interface precisa funcionar como um tradutor para sistemas muito diferentes que não compreendem um ao outro. Assim como um russo e um japonês, eles não falam a mesma lingua e não entendem o ponto de vista um do outro.

Grandes corporações precisam se permitir errar mais e aprender com esses erros rapidamente. Assim elas estarão aptas a encontrar as startups que vão revolucionar mercados e a própria corporação no processo.

Startups estão sedentas por clientes e por validação de mercado. Isso uma corporação pode oferecer em grande escala. Mas, grandes corporações geralmente são péssimas como early adopters (primeiros clientes) para startups. Portanto, grandes empresas precisam trabalhar com startups nos estágios de ideação e validações iniciais aceitando falhas ao longo do processo. Ao mesmo tempo buscar interagir com startups em estágios mais maduros de desenvolvimento é fundamental para agregar e capturar valor em um curto espaço temporal.

O ganha-ganha é a única opção para que o ecossistema brasileiro de startups possa se desenvolver.

4. Startups é um jogo diferente e novo

Startups B2C – business to consumer – são aquelas que vendem diretamente para o consumidor. Essas startups são muito difíceis, pois precisam de uma enorme quantidade de clientes pagantes para ficarem de pé. Logo, precisam de muito capital para sustentar o negócio nas fases iniciais.

Startups B2B – business to business – são aquelas que vendem diretamente para outras empresas. Geralmente, elas conseguem crescer mais rápido e com menos investimento. E, uma vez que elas descubram como entregar valor tangível para outras empresas (pequenas, médias e grandes), elas conseguem escalar operações e receita.

Até que alcancem o ponto de escala,  ambos os modelos precisam de apoio e expertise em tecnologia, canais de aquisição e vendas, acesso a parceiros estratégicos e clientes.

Encontrar essa expertise enquanto valida a demanda de mercado faz toda a diferença para uma startup. Logo, quanto mais players estiverem dispostos a colocar a mão na massa para ajudar startups a vencer esses desafios dos estágios iniciais, melhor. Quanto maior o comprometimento com o ecossistema e relacionamento com empreendedores mantendo a flexibilidade em atender suas demandas, para se adaptar melhor as necessidades das startups, maior será o sucesso do ecossistema como um todo. Afinal, um ecossistema pressupõe que players (empreendedores, startups, universidades, aceleradoras, fundos de investimento e agências governamentais de fomento) interajam entre si criando um sistema interconectado.

5. Uma mudança cultural de mentalidade é urgente

Como dito na introdução desse texto, os fundos de investimento – e consequentemente aceleradoras e demais “supporters” – precisam apoiar startups em fases iniciais com mais atenção ao início desses negócios, para garantir o resultado exponencial a longo prazo.

Isso só ocorrerá quando o ambiente de empreendedorismo estiver pavimentado. Quando adolescentes saírem do colegial preparados para assumirem os riscos inerentes ao empreendedorismo. Quando começarmos a perceber que fundar uma empresa pode ser um caminho mais integrativo e uma melhor maneira de participar no crescimento de uma sociedade do que angariar uma cadeira em um cargo público ou uma vaga de emprego formal em uma empresa (o que, ao contrário da geração de nossos pais, não pressupõe estabilidade ou felicidade garantidas).

Esse é o motivo pelo qual a O Tao Startups foi criada. É acreditando nessa mudança de mentalidade que apoiamos empreendedores e startups nas fases da ideia e validação e MVP e tração.

6. Ecossistemas abertos não são criados por laboratórios de inovação aberta

Obter uma cooperação funcional entre startups, corporações, agências governamentais e todos os players relevantes para o ecossistema de startups brasileiro é uma tarefa desafiadora. Isso não será alcançado apenas com laboratórios de inovação aberta como esforços isolados de iniciativas corporativas.

Como todo ecossistema de startups, todas os integrantes precisam fazer sua parte para atingirem um objetivo. Nesse foco, ousadia é a palavra-chave para ser levada a sério.

Mesmo que em menor escala, ja é hora de ver ações que não são moldadas por tendências emprestadas dos Estados Unidos. Sabemos que vivemos em um mundo globalizado e o que está dando certo em um país desenvolvido possivelmente dará certo aqui também. No entanto, o povo brasileiro é mais criativo e pode ir além. Não há motivos para não arriscar um pouco e aumentarmos nossa habilidade em criar e descobrir novas tecnologias, fomentar mudanças culturais autênticas e impactar as relações pessoais e corporativas para gerar sucesso econômico, social e comercial.

Conclusão

O ecossistema brasileiro de startups está crescendo rapidamente. Esse crescimento vem acontecendo com casos de sucessos e muitos momentos de aprendizado que estão ajudando a guiar o Brasil para um futuro melhor.

O sucesso obtido aqui é motivo de orgulho. O que não significa que não há pontos para serem melhorados e amplificados para que possamos, como um ecossistema de startups forte, sermos vistos mundialmente como um celeiro de inovação. Isso atrairá mais investimentos, mais talentos e mais motivação para que o trabalho feito até aqui gere resultados concretos para os próximos 100 anos e traga prosperidade e abundância para nossa nação. 

Esses seis pontos podem ser importantes para corporações, governos, empreendedores e outros players que desejam trilhar esse caminho.