Um IPO ou Oferta pública de ações sempre chama a atenção porque ele é um marco para qualquer empresa que se atreve a dar esse passo. Além disso, todo IPO é um acontecimento relevante de mercado, e quando a empresa é quente (hot ou hype) a mídia dá uma força criando um barulho ainda maior em torno do evento. A mídia, inclusive, detém o poder de influenciar o valor inicial de uma ação em seu IPO (mas esse não é o assunto aqui ;))

Um IPO acontece unicamente por dois motivos (geralmente os 2 juntos):

  • Dar liquidez a investidores
  • Arrecadar dinheiro no mercado

Esse é o momento em que uma empresa deixa de ser privada e passa a ser de capital aberto. Isso significa uma série de vantagens e de desvantagens que você vai descobrir a seguir.

Em 2019 este assunto tem criado um enorme “reboliço” no mercado de tech’s porque pelo menos 10 gigantes da tecnologia prometem fazer seus IPO’s. A lista conta com Pinterest e Zoom, que acabaram de fazer seus IPO’s, Uber, que já preencheu o S1 (formulário que é o primeiro passo para o IPO), Slack, Airbnb, BlaBlaCar, RobinHood, WeWork, Palantir (fundada pelo Peter Thiel e com mais de U$$20 bilhões em valuation) e o Lyft, que teve seu IPO recente. Além de inúmeras outras ex-startups de tech menores e menos atraentes que estes gigantes.

Essa “farra” de IPO’s das techs está sendo chamada (principalmente pelos corretores de imóveis de São Franscisco) como “Tech IPO tsunami”.

Mas o que elas tem em comum?

Quase todas as empresas são decacórnios (valuation superior a U$$ 10 bilhões de dólares), e juntas ultrapassam facilmente uma soma de valuations de U$$ 250 bilhões de dólares (aqui e aqui).

E para eu e você falarmos mais sobre isso, vamos alinhar os pontos mais básicos para que, caso você ainda não tenha entendido pra que um IPO serve, começar a entender.

O QUE É UM IPO?

Um IPO ou oferta pública inicial é basicamente o processo em que os donos de uma empresa privada decidem vender parte da empresa para investidores públicos, transformando o capital daquela empresa de fechado (privado) para aberto (público).

O primeiro passo para o IPO é o S1, nos EUA. No Brasil, mesmo para empresas brasileiras, geralmente não é vantajoso abrir o capital por aqui. O simples fato do dólar possuir um valor de mercado quase 4 vezes maior que o Real já é motivo suficiente. Mas, além disso, o capital nos EUA é mais abundante que em terras tupiniquins. EUA 2×0 BRA.

Uma vez que uma empresa se torna pública, praticamente qualquer um com uma conta de investimentos pode adquirir ações daquela empresa (mas nem sempre. Mais sobre isso a seguir).

Logo, a empresa deixa de ser de poucas pessoas e passa a pertencer a diversos investidores, que não possuem relação operacional ou de trabalho com aquela empresa. E isso tem impactos importantes em toda a estrutura de uma empresa, podendo apresentar oportunidades e riscos.

COMO FUNCIONA E PARA QUE SERVE UM IPO?

É um processo que funciona parecido com uma piramide (algo pra deixar os vendedores da Hinode orgulhosos)…

Primeiro a empresa conversa com um ou alguns bancos de investimento, que compram as ações da empresa (chamados bancos subscritores). A partir daí os bancos podem agir de duas formas:

  1. Buscar fundos de investimento privado para comprar essas ações.

Aqui os fundos de investimento buscam lucrar em taxas e na diferença de preços entre a compra e a venda para o mercado público enquanto o banco também lucra dessa maneira e reduz o risco de perda, em caso de uma abertura de capital mal sucedida.

  2. Os próprios bancos de investimento, ao comprarem as ações da empresa oferecem-na ao mercado público, sem vendê-las aos fundos de investimento privado.

Isso significa um intermediário a menos no processo.

Essa abordagem garante que a empresa que está fazendo o IPO não sofra com a possível volatização pré-IPO e não consiga atingir o valor-alvo que ela busca angariar no mercado, ao disponibilizar suas ações.

Afinal, fazer um IPO é sempre uma questão de money: para investir em crescimento e gerar liquidez para investidores.

O DIA DO IPO

O valor do IPO é, por sua natureza, especulativo. Muitas variáveis, como: quantos holofotes estão direcionados para aquela empresa (ela é lucrativa, “quente” ou “hype”?), o cenário geopolítico e as condições do mercado, além, claro dos principais unit economics (indicadores) da empresa.

Isso não impede que, no dia anterior ao IPO, a empresa e o banco subscritor determinem o valor inicial das ações para o dia seguinte. Nessa fase um preço-alvo já foi determinado, mas IPO’s são como motanhas russas, nunca andam em linha reta.

Além disso, quanto mais alto o valor inicial, mais dinheiro a empresa, o banco e os fundos de investimento ganham. Mas se o preço for alto demais pode afastar a demanda, e o preço por ação negociada pode cair drasticamente no aftermarket (o mercado aberto de ações, onde as ações serão comercializadas após a oferta inicial. Tradução: Onde os meros mortais operam).

Na maioria dos casos, se você quiser comprar ações de um IPO, vocâ não conseguirá sozinho. Geralmente o banco subscritor, agora dono das ações, escolhe para quem ele irá oferecer as ações iniciais. Os chamados investidores institucionais geralmente ficam com 80% das ações, enquanto os outros 20% ficam com corretoras de ações que geralmente as oferecem a traders que já possuem relacionamento de longo prazo com essas corretoras.

O QUE PODEMOS APRENDER COM O TSUNAMI DE IPO’S EM 2019

Eu não sei o que andaram colocando na água do Vale do Silício esse ano, mas já fazem uns bons 5 anos em que não se vê tantas empresas privadas de tecnologia se tornando públicas.

É claro, leva-se tempo para uma empresa privada se preparar para um IPO, já que isso representa mudanças muito fortes nas estruturas de gestão e governança e contas (transparência e priorização de indicadores).

E, ja que empresas como Uber, Pinterest, Slack, Airbnb e cia ltda., decidiram que essa é a hora, existem diversos benefícios que podem favorecer todo o ecossistema de startups e inovação mundial. Eu listei aqui 5:

  1. Teremos benchmark de mercados com alta liquidez em termos de quanto essas empresas de tecnologia de alto crescimento valem. Até hoje, a maioria dos benckmarks vem de mercados privados (sem liquidez) que não são exatamente os melhores mecanismos de descoberta de preços.
  2. Muitos investidores anjos, seeds e venture capitals, além de funcionários, receberão liquidez de seus investimentos e reciclarão esse dinheiro no setor de startups. Mais dinheiro siginifica mais startups sendo financiadas e mais inovação sendo criada.
  3. Os “limited partners”, chamados LPs, os responsáveis por colocar dinheiro nos fundos de venture capital, receberão ótimos retornos. O que trará mais confiança para continuarem a investir em startups e em novas tecnologias, e quem sabe trazer mais investidores e mais dinheiro com eles.
  4. Essas empresas, agora públicas, poderão acelerar seus programas de aquisição já que possuem dinheiro em caixa e ações para serem negociadas. Mais uma vez, o dinheiro circula no setor e reforça a criação de mais startups e inovação.
  5. A jornada dessas empresas servirá como bons exemplos para que mais e mais startups iniciem sua jornada com sede de impacto e crescimento. Afinal, o IPO (ou outras formas de exit) é onde 90% do valor de uma startup é gerado.

Claro que haverá também o lado negativo… Talvez quem more em San Francisco tenha que aprender a viver com um aluguel ainda mais caro. Mas isso não é algo que precisamos nos preocupar 🙂

PARA CONCLUIR…

Nunca tivemos um evento tão interessante de influxo de techs para o mercado de capital aberto. Isso nos abrirá novas oportunidades e horizontes. Mas é claro que o cenário é imprevisível. O que acontecerá depois de 2019? Uma calmaria ou uma onda crescente de IPO’s daqui pra frente?

Esses são dias incríveis, meu querido. Ninguém tem as repostas certas. Só vivendo para ver!